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▼ Postagens (3)
  • projetos e poemas

    03

    Nov
    03/11/2009 às 13h01
    Canto da saudade
    (Dedico este poema a minha
    Cunhada Helienne)





    És o canto da saudade
    E por São José do Egito
    O teu olho brilha bonito
    O teu coração é tão puro
    Tu tens um jeito maduro
    Com tudo sabe lhe dar
    Poder contigo contar
    É muito mais que uma gloria
    Tu tens na minha história
    O teu lugar pra morar




    Tu não estas tão sozinha
    Quando tu triste imagina
    Pois Deus numa obra divina
    O teu nome inteiro incluiu
    O anjo sorrindo sorriu
    Feliz cantando em seu canto
    Deus e qualquer outro santo
    És tu uma gloria também
    Pois tu que estas muito além
    Daquilo que vem teu pranto



    Galdêncio Neto




    A pior coisa do mundo
    Pra mim é gastar dez conto
    (A Humberto Flavio
    Meu irmão)





    A pior coisa do mundo
    Pra mim é gastar dez conto
    É coisa que eu fico tonto
    Quando acontece comigo
    Fico mordido lhe digo
    Dar a maior agonia
    Feito mulé que dá cria
    Eu num consigo esquecer
    Fico querendo morrer
    Pensando num outro dia



    E tanto que eu me controlo
    Pra isso num acontecer
    E feito louco eu viver
    Perdendo a noção o segundo
    Coisa pior nesse mundo
    Se Deus quiser num apronto
    Bebo cana fico tonto
    Apanho até da mulé
    Me mudo pro cabaré
    Mas eu num gasto dez conto.


    Galdêncio Neto




    Coração quando aflorado
    Nos fortalece o viver
    (um parceiro virtual mestre e incentivador)



    Coração quando aflorado
    Prova dos seus dissabores
    Não somos nós sabedores
    Desse mistério guardado
    É tudo bem engraçado
    Assim nos diz o saber
    E nós, vamos só aprender
    Que o sofrer só faz o bem
    Nunca acabou com ninguém
    E fortalece o viver



    Falei pra minha menina
    Que se encontrava ao meu lado:
    "Coração quando aflorado
    Transforma qualquer rotina"
    E ela, vendo a sua sina,
    Querendo corresponder,
    Disse a mim: "Meu bem-querer,
    Ele muda de repente
    Não a rotina somente,
    Mas fortalece o viver"



    Em nó ficou meu traçado
    Quando conhecera a vida
    Perdi de contra a partida
    Em meu peito imaculado
    Coração quando aflorado
    Nos faz na vida entender
    Derrota é razão ao perder
    Tristeza é grande alegria
    Fraqueza e a sabedoria
    Só fortalece o viver




    Galdêncio Neto/ Felipe Júnior



    Os sábios de coração
    Tem poder na Natureza
    (Mais um parceiro virtual, mestre e
    Incentivador)



    A brisa carrega nela
    Com vôos do beija flor
    Os versos do cantador
    Que inspiram a coisa bela
    Há quem pinta uma aquarela
    Com as cores da pureza
    E entoando uma beleza
    Nas estrofes de cancão
    Os sábios de coração
    Tem poder na natureza



    E entoando a canção
    Num vôo de passarinho
    O tempo tece seu linho
    Quando acaba o verão
    Os sábios de coração
    Não precisam de riqueza
    Verdade posta na mesa
    Isso é sabedoria
    Um grande sábio nos guia
    Com o poder da Natureza



    Os sábios de coração
    Quando em mesma sintonia
    Hoje o sábio que nos guia
    No amanhã guiados estão
    E com um linho em sua mão
    Vão tecendo sua franqueza
    Contornando sua grandeza
    De que vale idolatria?
    Se quem tem sabedoria
    Tem poder na natureza




    Galdêncio Neto/Maviael Melo




    Amigo é mais um irmão
    Que é só a gente que escolhe




    Irmão, o melhor amigo
    Que Deus escolhe pra gente
    Os dois num são diferente
    Só no cordão do umbigo
    No peito leva consigo
    Uma fé que tudo acolhe
    A dor do outro ele olhe
    São sagas do coração
    Amigo é mais um irmão
    Que é só a gente que escolhe




    Amizade verdadeira,
    Coisa quase inexistente,
    Quem tem verdadeiramente,
    É rico pra vida inteira!
    Mas amizade “fuleira”
    Que fica com puxa-encolhe,
    Ou o satanás recolhe
    Ou vira uma confusão...
    Amigo é mais um irmão
    Que é só a gente que escolhe.


    Galdêncio Neto/ Dedé Monteiro



    Toda noite a saudade me visita
    Prá mostrar mais um filme do passado
    Mote João Luis
    Homenagem ao mestre Walmar




    O meu céu se tornou um véu de brasas
    Quando vim conhecer a solidão
    Meu destino passou pra contra mão
    Me perdi dentro em minha própria casa
    A angustia podou as minhas asas
    Vi um mundo de sonhos triturados
    Construí um castelo improvisado
    Mas me vi inquilino em palafita
    Toda noite a saudade me visita
    Pra mostrar mais um filme do passado

    (Walmar)

    A saudade domina meu querer
    Faz-me vivo e presente no passado
    Vivo o sonho que nunca foi sonhado
    Com Walmar aprendendo a aprender
    Apostando na ânsia de vencer
    Por “Kalu” foi pra mim apresentado
    Um momento por nós já superado
    Numa linha por Deus há tempo escrita
    Toda noite a saudade me visita
    E me mostra esse filme do passado


    (Galdêncio Neto)




    Coisas que é só coração
    Que num consigo explicar




    A minha poesia é viver
    A minha expressão é contida
    Muitas das vezes banida
    Mais é querendo fazer
    Vivo aprendendo aprender
    Na arte da vida expressar
    Vida o que quero mostrar
    Toda essa minha emoção
    Coisas que é só coração
    Que num consigo explicar



    Nunca estudei num rabisco
    Mais comecei praticar
    Mesmo sem metrificar
    Também escrevo e belisco
    Sabendo o monte de risco
    Que vou com a arte encontrar
    Tentando tento rimar
    Com versos e entonação
    Coisas que é só coração
    Que num consigo explicar




    As coisas na qual absorvo
    Quem quer na vida ensinar
    Com todos compartilhar
    Fazendo o novo mais novo
    Mostrando o verso do povo
    Mesmo sem saber rimar
    Que na poesia ela estar
    Dentro de cada torrão
    Coisas que é só coração
    Que num consigo explicar

    Galdêncio Neto



    A beleza ficou muito mais bela
    Em um quadro por um Deus desenhado
    (Este Poema dedico a minha filha
    Grazielly)




    Sentindo batendo o peito bateu
    Foi quando eu elevei na minha mente
    Para, eu tentar fazer diferente
    Com o presente que o senhor me deu
    Como um tear o meu linho teceu
    E com outros fios do manto sagrado
    O santo sudário ganhou o bordado
    Quando ri com o nascimento dela
    A beleza ficou muito mais bela
    Em um quadro por um Deus desenhado



    É melodia do riso quando chora
    Os olhos para tudo é uma rima
    O teu ser é a mais pura, obra prima
    E quando tu estás fora de hora
    O meu branco com o branco colora
    Com as cores do estar acordado
    E realça com o sono esperado
    E olhando na tua face singela
    A beleza ficou muito mais bela
    Em um quadro por um Deus desenhado.

    Galdêncio Neto

  • poeta e poemas

    24

    Ago
    24/08/2009 às 18h53
    Águas do querer


    Você me disse
    Pra não brincar com fogo
    Que podia me queimar
    Também falou
    Que a vida é um jogo
    E pra vencer
    Tem que se saber jogar
    E disse vai
    Tira o brio da poeira
    Prele num empoeirar
    Tudo que sobe desce
    E vento que venta aqui
    Certamente venta lá
    Só não me disse
    Que meu peito é de pedra
    E as águas do querer
    Com certeza iam furar.


    Galdencio


    Minha terra


    Casa de taipa
    Gambiarra na parede
    Uma gaiola numa ripa
    E um menino numa rede
    Radio de pilha
    No terreiro um cantador
    Do lado uma capela
    Com o santo num andor
    O que preciso
    Na bodega encontro lá
    E la perto tem um campim
    Da até pra nós jogar
    Levo essa vida
    Sem eu ter nenhum vintém
    Mas não troco minha terra
    Por capitá de seu ninguém.


    Galdencio


    Morena(Musicada por Liozipio)

    A faca na bananeira
    Riscou meu nome e o teu
    Crendice ou maluquice
    Pra mim foi Deus que escreveu
    Naquele dia, morena
    O martelo pra gente bateu
    Morena tu num me deixe
    Que eu a ti sou fiel
    Tu és pra mim um pitéu
    Daqueles que todos cobiçam
    Porém me dá uma preguiça
    De crer nos óios teu
    Que tu de mim esqueceu
    Que tu num mais me colora
    Tu deixa de tua demora
    Que homi pra tu só tem eu

    (Galdencio)

    Mestre Poeta
    (Ao Mestre Liozipio)


    Eu sou um fruto
    Cultivado no nordeste
    Me torno cabra da peste
    Com quem taxa o meu sertão

    Terra mais linda
    Eu ainda num conheço
    Neste solo enriqueço
    Como é bela a floração

    Na terra santa
    O que se planta aqui se cria
    É o milagre a invernia
    Misturado com o verão

    Mestre poeta
    Se tornou um dicionário
    E mandou mudar o cenário
    E a bandeira do sertão

    Cenário este
    Que agora não se muda
    Minha gente não se iluda
    Não há seca no sertão.


    Galdencio

    A arte de Deus ao poeta
    Que a mim o senhor emanou



    Na noite
    Posso ser luz
    Na ida
    Sou nostalgia
    Da musica
    Eu sou a letra
    No mundo de Deus
    Sou a cria
    Na arte
    Sou criador
    Por propagar quem amou
    De forma nada seleta
    Na arte de Deus ao poeta
    Que a mim o senhor emanou.


    Galdencio



    Educação de Matuto

    Seu doutor eu sou matuto
    La das bandas do sertão
    Nunca fui numa escola
    Mas eu tenho educação
    Minha escola foi à vida
    Diferente dessa sua
    Conheci o sofrimento
    Ele vivo em carne crua
    Meu primeiro ensinamento
    Foi com um mestre sabiá
    A caneta foi meu dedo
    A esponja um trapiá
    O que sei oh seu doutor
    Conheci lá no roçado
    Num almoço quando vinha
    Aprendi dizer brigado
    Nessa escola seu doutor
    O senhor não é formado
    Se quiser eu ignoro
    O que o senhor mostrou a mim
    E a educação de um matuto
    Eu lhe passo um bucadim
    E o senhor doutor aprende
    Pra depois cuidar de mim.

    Galdencio


    Infância de Menino


    O riacho que deságua
    No meu peito traz saudade
    Do meu tempo de menino
    Ate minha mocidade
    Quando eu era criança
    Sob a luz do candeeiro
    Pra ficar com as menininhas
    Me sentava no terreiro
    Pra puder contar estrelas
    Tomar água de cabaça
    Escutar cantar de grilo
    E comer beiju de massa
    Pra comer beiju de mãe
    Com café quente e fresquinho
    Que dava pra todo mundo
    Mãe partia direitinho
    Num falhava uma só noite
    A gente naquele cantinho
    Toda noite inda me lembro
    Da pureza La de casa
    Da infância de um menino
    Que marcou como com brasa.
    (Galdencio)



    Sertão Chovedor



    Essa noite quando deitei
    Sem querer sonhei dormindo
    Que em meu sertão vinha vindo
    Água e muita fartura
    E minha terra que é dura
    Começou frutificar
    E um verde lindo brotar
    Num novo sertão chovedor
    E um curió cantador
    A mim começou mostrar
    Da terra a coisa mais linda
    O dia que a seca se finda
    E que não mais vai voltar
    E com um toque mais que sutil
    O João de Barro faz sua casa
    E a minha alegria extravasa
    Com um Beija Flor sobre o rio
    Mas pra acabar com o meu brio
    O sol queimou o meu rosto
    Trazendo um acordar com desgosto
    Dum sonho que foi o mais lindo
    Do meu sertão chovedor
    Que sem querer sonhei dormindo

    Galdêncio

    Linda Flor


    Só a força do amor
    Conseguiu trazer você
    Que é pra eu puder te ter
    Pra ninar meu coração

    A certeza de um amor
    Trago em minha devoção
    Sou devoto de Luiz
    Padre ciço e lampeão

    Linda Flor tu és real
    Me assombra tua beleza
    Teu olhar celestial
    De menina tens pureza

    Se pudesse eu voaria
    Pra pertinho de você
    E querendo te querer
    Pra contigo eu ficar
    Tu comigo és completa
    Nem artista nem profeta
    Nosso amor vai decifrar.


    Galdencio



    Coisas que inventei de inventar


    Inventei de inventar um invento
    Certo que seria estrela
    Não passei de ser jumento
    inventei um tal de ficar
    Era só agarra agarra
    Era só se esfregar
    O invento foi tão bom
    Que danei-me a inventar
    E inventei o tal do namorar
    No namoro era melhor
    Era mais que agarra agarra
    Era mais que esfregar
    O que queria podia
    Só carecia lhe falar
    Foi o melhor invento
    Que inventei de inventar
    Não me dei por satisfeito
    Inventei de me casar
    Acabou-se a liberdade
    Junto com felicidade
    Comecei a me lascar
    Hoje triste e infeliz
    Intriguei-me do juiz
    Que ajudou me condenar
    Também não falo as testimunhas
    Pois se fossem meus amigos
    Eles também não tavam lá
    Se culpado já paguei
    Mas se a culpa for do padre
    Ele também vai me pagar
    Dos inventos que inventei
    Entre eles este é o rei
    No pior do inventar.

    Galdencio



    Nós


    Se nós dois assim pensasse
    Se nós dois assim queresse
    Se os sonhos não parasse
    Se os sonhos só crecesse
    Se comigo tu quisesse
    Só pra nós,nós dois vivesse
    Se a gente só se amasse
    Quem sabe a gente num sofresse
    Se a gente se humilhasse
    E nesse ato nós crecesse
    Só um perdão nós dois pedisse
    E nada disso acontecesse
    E o amor não mais deixasse
    Que mesmo vivo nós morresse.

    Galdencio


    Nasce poeta
    (A Luan meu filho)


    No corredor de um hospital
    Mulher que grita ao parir
    Temendo não resistir
    A uma dor não profana
    Rolando em cima da cama
    Quase toda a madrugada
    Esperando uma parada
    Uma paz no coração
    Um pouco de solidão
    Muda o rumor de uma vida
    Sarando tanta ferida
    A pouco tempo criada
    No meio de uma jornada
    Acaba com tua dor
    Acha paz e o amor
    Glória a Deus e é Maria
    Mas uma mulher que dá cria
    De forma tão indiscreta
    Vem ao mundo,nasce poeta
    Vem de contra o sofrimento
    Choro,fadiga e lamento
    Muda a fome e a tristeza
    O que a natureza cria
    Muda até o pensamento
    Transformando em poesia.

    (Galdencio)



    O que é que me falta fazer mais...
    (mote de Ivanildo Vila Nova)


    A Bill Gates eu um dia dei esmola
    Pra rimar sou veloz e não tropeço
    Ensinei o Pelé a jogar bola
    Pinto e Louro ensinei a fazer verso
    Fiz a Fenix ressurgir e ir a lua
    Elegi um honesto presidente
    Coloquei Napoleão pra varrer rua
    fiz um homem comer coco sem ter dente
    Do folgado eu tirei toda preguiça
    Pra fazer sou veloz e sou audaz
    Fiz o diabo no domingo ir a missa
    O que é que me falta fazer mais...

    (Galdencio)

    Utopia


    Tudo em você admirei
    O brilho dos meus olhos
    Aos teus aproximei
    Embriaguei-me com teu cheiro
    E senti minha utopia
    Pensei que teu amor
    Amor meu nunca seria
    Meio que desnortiado
    Não achei destinatário
    Perdi-me num labirinto
    Em meu próprio imaginario
    Ao achar uma saída
    Dei de cara com você
    Com seu beijo empreguinei-me
    Nunca mais vou esquecer
    E não mais que derrepente
    Veio à noite e foi-se o dia
    E mostrou que teu amor
    Era minha utopia.

    (Galdencio)



    Pedra de bodoque (Musicada por Liozipio)


    Eu fui usado
    Feito pedra de bodoque
    Onde cheguei bati tão forte
    Sem querer deixei a dor
    Fiz um estrago
    Acabei com tua vida
    Abri no peito uma ferida
    E o riacho que desagua
    Para mim em ti secou
    Eu vi nascer,frutificar
    Fazer morada
    Fui a pedra na estrada
    Que o destino assim lançou
    Abri os olhos e feri a minha alma
    Quando o canteiro da saudade
    Ele em mim desabrochou

    (Galdencio)


    Divina inspiração
    (Primogênito Lucas)

    Razão do meu viver
    Minha divina inspiração
    Foi Deus quem fez você
    Nós dois em um só coração
    És pequenino anjo
    Que veio pra eu proteger
    É a coisa mais bonita
    Preciso muito de você
    Estrela no meu céu
    Água no meu mar
    És fonte iluminada
    O ar pra eu respirar,
    Coração batendo junto
    numa mesma sintonia
    Por saber que estás comigo
    Seja noite ou seja dia

    Galdencio Neto
  • Fato

    05

    Ago
    05/08/2009 às 10h31
    Severino Lourenço da Silva Pinto foi um poeta superlativo. Astuta raposa, cobra das mais venenosas. O seu poder de criação e a velocidade de raciocínio muitas vezes faziam as palavras tropeçarem umas nas outras, não pelo verso quebrado, absolutamente, mas quase engolindo sílabas, dada a ligeireza dos versos despejados em turbilhão. Autor de versos contundentes, tudo nele transpirava grandiosidade. Foi um gênio da cantoria

    A data de seu nascimento é incerta. Mas numa entrevista concedida a Djair de Almeida Freire, em 11/04/1983, na casa do poeta, ele revelou sua idade. Eis os principais trechos:

    "Meu nome é Severino Lourenço da Silva Pinto Monteiro, nasci em 1895, a 21 de novembro, a uma da madrugada, assim dizia minha mãe. Batizei-me a primeiro de janeiro de 1896, pelo padre Manoel Ramos , na Vila de Monteiro. Nasci na rua, mas morava em Carnaubinha. Com sete anos de idade, em 1903, fui para a Fazenda Feijão. Saí de lá em 1916, 30 de junho. Meus avós eram da Itália. Quando chegaram por aqui se misturaram com sangue de português. Esse Monteiro é parente dos Brito, eu sou parente dos Brito".

    Essa figura legendária, que atendia pelo nome de Pinto do Monteiro correu muito trecho pelo Brasil afora. Filho de um tropeiro com uma doméstica, Pinto experimentou muitas profissões, antes de se dedicar inteiramente à viola. A primeira foi de vaqueiro. Foi soldado de polícia, guarda de serviço contra a malária, auxiliar de enfermeiro, vendedor de cuscuz no Recife. "Depois larguei os cuscuz e ficava cantando na calçada do mercado de São José", declarara o próprio Pinto, certa vez. Recordava outra vez que, ao cantar como estreante, alguém o alertou: "Se você continuar, vai cantar de assombrar o mundo". E assombrou.

    Ele tinha 25 anos quando começou a cantar. Foram seus mestres de cantoria Saturnino Mandu, de Poções (PE), Manoel Clementino, de Sumé (PB), e José de Lima em companhia de quem foi para o Recife onde cantou com muitos repentistas daquele Estado.

    Em 1940, já tendo adquirido bastante experiência como cantador e mestre em cantoria, viajou para o Amazonas, onde até 1946 exerceu as funções de guarda do serviço contra a malária, ora em Porto Velho, ora em Guajaramirim, ora em Boa Vista. Quando voltou veio morar no Ceará. E em 1947 muda-se para Caruaru (PE). Depois mudou-se para Sertânea (PE), mais perto de Monteiro.

    A característica marcante da cantoria de Pinto foi a naturalidade e rapidez de improviso. Cognominado "A Cascavel do Repente", Pinto era ágil, certeiro, veloz, e também venenoso e mortífero, deixando muitas vezes o oponente mudo e sem resposta. Numa ocasião, foi convidado a assistir a uma cantoria, em que um dos repentistas era Patativa, poeta ruim, cuja viola era toda enfeitada de fitas coloridas, Alguém pediu ao dono da casa que deixasse Pinto cantar. "Com a gente, não, não, só se for sozinho", defendeu-se a dupla. Pinto ficou em pé, no meio da sala, e disse:


    Eu não sei como se ouve
    Cantor como Patativa
    Toda pronúncia é errada
    Toda rima é negativa
    A viola só tem fita
    Mas a cantiga é merda viva".


    A troca de "amabilidades" com qualquer que fosse o cantador era uma constante. Se o adversário era ruim, apertava o cerco. Se, por outra, era um do porte de Lourival Batista, a disputa fervia. Destemido, lutou contra cangaceiros, quando era da polícia. Mas, não chegou a lutar contra Lampião, pois somente quando estava no Acre, no serviço contra a malária, é que o famoso sertanejo entrou no cangaço.

    A Cascavel do Monteiro esguio, estatura mediana, teve quatro mulheres. Nenhum filho, ao menos oficialmente. Aprendeu a ler e a escrever, já adulto, o que foi suficiente para aprimorar conhecimentos de história e geografia gerais, história antiga, história do Brasil. Gostava de escrever poemas e cartas aos amigos. Era um assombro de agilidade e insolência. Malcriado como sempre, acabava com o violeiro nas primeiras linhas.

    Cantando em Caruaru, com Aristo José dos Santos, ouviu a estrofe que assim terminava: "moço comigo é na faca / velho comigo é no pau". Respondeu:


    Mas eu sou como lacrau
    Que do lixo se aproxima
    Vivendo da umidade
    Se alimentando do clima
    Pra ver se um besta assim
    Chega e bota o pé em cima.


    Se provocado não tinha papas na língua nem conveniências. E o contendor era obrigado a recuar porque, com sua peculiar fertilidade de versejar, era capaz de fazer uma segunda sextilha antes que o outro se refizesse do choque da primeira resposta. Cantando uma vez com Joaquim Vitorino, este caiu na asneira de fazer referências às lapadas de cana de um primo seu. Pinto então fez esta sextilha, causando um certo desconforto no companheiro:


    Você bebe até veneno!
    Seu pai é bom troaqueiro,
    Manoel, um ébrio afoito
    Vive apanhando em Monteiro!
    Quem tem uma corja desta
    Não fala de cachaceiro.


    A cantoria é uma manifestação muito criativa. E cantar de improviso requer muita agilidade de pensamento. E Pinto tinha tudo isso. Ele atravessou décadas cantando. Conheceu uma centena de repentistas, duelando com muitos deles. Desafiou grandes cantadores, como Lourival Batista, Dimas Batista, Pedro Amorim, Rogaciano Leite, Heleno Pinto (seu irmão), Antônio Marinho e muitos outros. "Eu assisti Pinto no auge, com Louro. Várias vezes. Nunca consegui saber qual dos dois estava na frente. No mínimo, era um empate", relembra Raimundo Patriota. E acrescenta: "Seguir o estilo de Pinto era muito difícil. Era um estilo muito pessoal. Muitos tentaram, mas não conseguiram". A verdade é que o nome de Pinto tomou-se um marco no universo da poesia improvisada do Nordeste. Diz-se que foi o maior.

    Certa vez, ao ser perguntado sobre os maiores repentistas, Pinto não titubeou: "Foi o sogro e o genro" (referindo-se a Antonio Marinho e Lourival Batista). Com Job Patriota, foi mais direto: "Do meu tamanho mesmo, só Louro e Antônio Marinho. O resto é assim do seu tamanho". Quanto a Rogaciano Leite, considerado discípulo da Cascavel, Pinto coloca-o no rol dos grandes, chamando-o de "monstro".

    João Furiba cantou muito com Pinto e não tinha medo de apanhar. No Festival de Violeiros de Olinda, em 1984, Furiba homenageou o mestre, presente ao acontecimento. "Seu verso hoje é açude / que abarrota a represa / rio que não perde a água / planta que possui beleza / gênio que desdobra o mundo / por conta da natureza".

    Não se sabe, ao certo, com que idade Pinto morreu. Uns dizem que ele era de 1895, outros, de 1896. O próprio dizia que nasceu ora em 2 de novembro de 1896, ora em 21 de novembro de 1895. Afirma-se que morreu com mais de cem anos. Testemunhos dizem que era mais novo do que Antônio Marinho apenas dois anos. Conforme esse dado, Pinto teria morrido aos 101 anos, uma vez que Marinho é de 1887. Já velhinho, carregava um pandeiro para acompanhá-lo nos improvisos, alegando que "o volume é mais pequeno / e o pacote é mais maneiro".

    Para alegria dos admiradores, Pinto deixou sua voz registrada em dois LP's — Pinto do Monteiro: Vida, Poesia e Verdade, produzido pela Fundação Joaquim Nabuco, e Pinto de Monteiro e Zé Pequeno: acelerando as asas do juízo, selo independente. Há, ainda, sua imagem e voz em inúmeras fitas de vídeo, Super-8, cassete, cinema. Deve haver, também, registro de muitos dos festivais dos quais participou, no Recife, São Paulo, João Pessoa, Fortaleza, Caruaru, Limoeiro, Petrolina, Campina Grande, entre outros.

    No I Congresso de Cantadores do Recife, organizado por Rogaciano Leite, em 1948, no teatro de Santa Isabel, Pinto do Monteiro foi o grande vencedor, juntamente com o piauiense Domingos Martins Fonseca. Em dezembro de 1970, foi ao Festival de Cinema de Guarujá, com Lourival Batista, Job Patriota, Pedro Amorim, José Nunes Filho. Teve participação em filmes, entre eles, Nordeste: Cordel, Repente, Canção, dirigido por Tânia Quaresma.
    Certa vez, Pinto cantando com um outro seu colega, este elogiava o Sertão, terra do velho cantador, e terminou uma sextilha assim: "Não sei medir o tamanho / dessa gente sertaneja". Pinto pega na deixa e diz, com sua maneira autêntica de sertanejo puro e de versos fáceis:


    Que eu esteja em casa ou não esteja
    chegue, entre e arme a rede
    coma se estiver com fome
    beba se estiver com sede
    se quiser se balançar
    empurre o pé na parede.


    De outra feita, numa dessas suas grandes e ferrenhas lutas, em seu desafio o parceiro termina uma sextilha assim: "quando eu for para o outro mundo / vou lhe promover a galo". Facilmente, Pinto jogou esta sátira:


    Se eu gozar desse regalo
    concedido pela providência
    quando eu for pra o outro mundo
    havendo esta transferência
    você vem como galinha
    para a mesma residência.


    Pinto era um verdadeiro cantador de repente. Bem diferente dos que normalmente conhecemos, que seguem uma rotina. Ele não. Respondia ao que lhe perguntam e revidava conforme lhe feriam. Numa cantoria, seu colega querendo atacá-lo, disse: "Aqui nesta cantoria / eu quero deixá-lo rouco". Pinto, com sua inesgotável idéia, responde:


    Cantar com quem canta pouco
    é como viajar numa pista
    com um carro faltando freios
    o chofer faltando a vista
    e um doido gritando dentro:
    "atola o pé motorista".


    Em toda cantoria há o momento dos elogios, em que o cantador faz uma exaltação ao ouvinte, para agradá-lo e a paga ser recompensável. Era uma delas, o velho Pinto elogiava um sujeito e tudo fazia para agradá-lo. O camarada foi se retirando e não pagou. Pinto notou que ele tinha uma verruga no rosto e imediatamente soltou a dele, com esta sextilha:


    Eu não posso confiar
    em cabra que tem verruga
    cachorro de boca preta
    terreno que não enxuga
    comida que doido enjeita
    e casa que cigano aluga.


    Sua viola era sagrada. Tinha um ciúme danado dela. Quando ele próprio sentiu que já estava próximo da morte, pois se encontrava muito doente, fez a seguinte recomendação à sua mulher:


    Velhinha, quando eu morrer
    Conserve a minha viola
    Bote ela numa sacola
    E deixe o rato roer
    Barata dentro viver
    O morcego morando nela
    O cupim comento ela
    E ela perdendo o valor
    Só não deixe cantador
    Bater mais nas cordas dela.


    De 1988 até a morte, Pinto permaneceu em Monteiro. Já cego e paralítico, porém totalmente lúcido, entregou-se à morte por absoluta falta de opção, numa noite de domingo, 28 de outubro de 1990, após viver mais de nove décadas, pelo menos, e deixar seu nome inscrito nos anais da fama, como cantador dotado de muita agilidade mental e muita ironia.Seu derradeiro sonho era morrer em Pernambuco, próximo dos companheiros de viola. Não o realizou, mas garantiu que ficaria para semente, como, de fato, ficou, brotando na memória do improviso:


    Quando os velhos morrem
    Os que ficam cantam bem
    Duda passou de Marinho
    Por mim não passa ninguém.
    Eu vou ficar pra semente
    Prá séculos sem fim amém
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