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03/11/2009 às 13h01
Canto da saudade
(Dedico este poema a minha
Cunhada Helienne)
És o canto da saudade
E por São José do Egito
O teu olho brilha bonito
O teu coração é tão puro
Tu tens um jeito maduro
Com tudo sabe lhe dar
Poder contigo contar
É muito mais que uma gloria
Tu tens na minha história
O teu lugar pra morar
Tu não estas tão sozinha
Quando tu triste imagina
Pois Deus numa obra divina
O teu nome inteiro incluiu
O anjo sorrindo sorriu
Feliz cantando em seu canto
Deus e qualquer outro santo
És tu uma gloria também
Pois tu que estas muito além
Daquilo que vem teu pranto
Galdêncio Neto
A pior coisa do mundo
Pra mim é gastar dez conto
(A Humberto Flavio
Meu irmão)
A pior coisa do mundo
Pra mim é gastar dez conto
É coisa que eu fico tonto
Quando acontece comigo
Fico mordido lhe digo
Dar a maior agonia
Feito mulé que dá cria
Eu num consigo esquecer
Fico querendo morrer
Pensando num outro dia
E tanto que eu me controlo
Pra isso num acontecer
E feito louco eu viver
Perdendo a noção o segundo
Coisa pior nesse mundo
Se Deus quiser num apronto
Bebo cana fico tonto
Apanho até da mulé
Me mudo pro cabaré
Mas eu num gasto dez conto.
Galdêncio Neto
Coração quando aflorado
Nos fortalece o viver
(um parceiro virtual mestre e incentivador)
Coração quando aflorado
Prova dos seus dissabores
Não somos nós sabedores
Desse mistério guardado
É tudo bem engraçado
Assim nos diz o saber
E nós, vamos só aprender
Que o sofrer só faz o bem
Nunca acabou com ninguém
E fortalece o viver
Falei pra minha menina
Que se encontrava ao meu lado:
"Coração quando aflorado
Transforma qualquer rotina"
E ela, vendo a sua sina,
Querendo corresponder,
Disse a mim: "Meu bem-querer,
Ele muda de repente
Não a rotina somente,
Mas fortalece o viver"
Em nó ficou meu traçado
Quando conhecera a vida
Perdi de contra a partida
Em meu peito imaculado
Coração quando aflorado
Nos faz na vida entender
Derrota é razão ao perder
Tristeza é grande alegria
Fraqueza e a sabedoria
Só fortalece o viver
Galdêncio Neto/ Felipe Júnior
Os sábios de coração
Tem poder na Natureza
(Mais um parceiro virtual, mestre e
Incentivador)
A brisa carrega nela
Com vôos do beija flor
Os versos do cantador
Que inspiram a coisa bela
Há quem pinta uma aquarela
Com as cores da pureza
E entoando uma beleza
Nas estrofes de cancão
Os sábios de coração
Tem poder na natureza
E entoando a canção
Num vôo de passarinho
O tempo tece seu linho
Quando acaba o verão
Os sábios de coração
Não precisam de riqueza
Verdade posta na mesa
Isso é sabedoria
Um grande sábio nos guia
Com o poder da Natureza
Os sábios de coração
Quando em mesma sintonia
Hoje o sábio que nos guia
No amanhã guiados estão
E com um linho em sua mão
Vão tecendo sua franqueza
Contornando sua grandeza
De que vale idolatria?
Se quem tem sabedoria
Tem poder na natureza
Galdêncio Neto/Maviael Melo
Amigo é mais um irmão
Que é só a gente que escolhe
Irmão, o melhor amigo
Que Deus escolhe pra gente
Os dois num são diferente
Só no cordão do umbigo
No peito leva consigo
Uma fé que tudo acolhe
A dor do outro ele olhe
São sagas do coração
Amigo é mais um irmão
Que é só a gente que escolhe
Amizade verdadeira,
Coisa quase inexistente,
Quem tem verdadeiramente,
É rico pra vida inteira!
Mas amizade fuleira
Que fica com puxa-encolhe,
Ou o satanás recolhe
Ou vira uma confusão...
Amigo é mais um irmão
Que é só a gente que escolhe.
Galdêncio Neto/ Dedé Monteiro
Toda noite a saudade me visita
Prá mostrar mais um filme do passado
Mote João Luis
Homenagem ao mestre Walmar
O meu céu se tornou um véu de brasas
Quando vim conhecer a solidão
Meu destino passou pra contra mão
Me perdi dentro em minha própria casa
A angustia podou as minhas asas
Vi um mundo de sonhos triturados
Construí um castelo improvisado
Mas me vi inquilino em palafita
Toda noite a saudade me visita
Pra mostrar mais um filme do passado
(Walmar)
A saudade domina meu querer
Faz-me vivo e presente no passado
Vivo o sonho que nunca foi sonhado
Com Walmar aprendendo a aprender
Apostando na ânsia de vencer
Por Kalu foi pra mim apresentado
Um momento por nós já superado
Numa linha por Deus há tempo escrita
Toda noite a saudade me visita
E me mostra esse filme do passado
(Galdêncio Neto)
Coisas que é só coração
Que num consigo explicar
A minha poesia é viver
A minha expressão é contida
Muitas das vezes banida
Mais é querendo fazer
Vivo aprendendo aprender
Na arte da vida expressar
Vida o que quero mostrar
Toda essa minha emoção
Coisas que é só coração
Que num consigo explicar
Nunca estudei num rabisco
Mais comecei praticar
Mesmo sem metrificar
Também escrevo e belisco
Sabendo o monte de risco
Que vou com a arte encontrar
Tentando tento rimar
Com versos e entonação
Coisas que é só coração
Que num consigo explicar
As coisas na qual absorvo
Quem quer na vida ensinar
Com todos compartilhar
Fazendo o novo mais novo
Mostrando o verso do povo
Mesmo sem saber rimar
Que na poesia ela estar
Dentro de cada torrão
Coisas que é só coração
Que num consigo explicar
Galdêncio Neto
A beleza ficou muito mais bela
Em um quadro por um Deus desenhado
(Este Poema dedico a minha filha
Grazielly)
Sentindo batendo o peito bateu
Foi quando eu elevei na minha mente
Para, eu tentar fazer diferente
Com o presente que o senhor me deu
Como um tear o meu linho teceu
E com outros fios do manto sagrado
O santo sudário ganhou o bordado
Quando ri com o nascimento dela
A beleza ficou muito mais bela
Em um quadro por um Deus desenhado
É melodia do riso quando chora
Os olhos para tudo é uma rima
O teu ser é a mais pura, obra prima
E quando tu estás fora de hora
O meu branco com o branco colora
Com as cores do estar acordado
E realça com o sono esperado
E olhando na tua face singela
A beleza ficou muito mais bela
Em um quadro por um Deus desenhado.
Galdêncio Neto
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24/08/2009 às 18h53
Águas do querer
Você me disse
Pra não brincar com fogo
Que podia me queimar
Também falou
Que a vida é um jogo
E pra vencer
Tem que se saber jogar
E disse vai
Tira o brio da poeira
Prele num empoeirar
Tudo que sobe desce
E vento que venta aqui
Certamente venta lá
Só não me disse
Que meu peito é de pedra
E as águas do querer
Com certeza iam furar.
Galdencio
Minha terra
Casa de taipa
Gambiarra na parede
Uma gaiola numa ripa
E um menino numa rede
Radio de pilha
No terreiro um cantador
Do lado uma capela
Com o santo num andor
O que preciso
Na bodega encontro lá
E la perto tem um campim
Da até pra nós jogar
Levo essa vida
Sem eu ter nenhum vintém
Mas não troco minha terra
Por capitá de seu ninguém.
Galdencio
Morena(Musicada por Liozipio)
A faca na bananeira
Riscou meu nome e o teu
Crendice ou maluquice
Pra mim foi Deus que escreveu
Naquele dia, morena
O martelo pra gente bateu
Morena tu num me deixe
Que eu a ti sou fiel
Tu és pra mim um pitéu
Daqueles que todos cobiçam
Porém me dá uma preguiça
De crer nos óios teu
Que tu de mim esqueceu
Que tu num mais me colora
Tu deixa de tua demora
Que homi pra tu só tem eu
(Galdencio)
Mestre Poeta
(Ao Mestre Liozipio)
Eu sou um fruto
Cultivado no nordeste
Me torno cabra da peste
Com quem taxa o meu sertão
Terra mais linda
Eu ainda num conheço
Neste solo enriqueço
Como é bela a floração
Na terra santa
O que se planta aqui se cria
É o milagre a invernia
Misturado com o verão
Mestre poeta
Se tornou um dicionário
E mandou mudar o cenário
E a bandeira do sertão
Cenário este
Que agora não se muda
Minha gente não se iluda
Não há seca no sertão.
Galdencio
A arte de Deus ao poeta
Que a mim o senhor emanou
Na noite
Posso ser luz
Na ida
Sou nostalgia
Da musica
Eu sou a letra
No mundo de Deus
Sou a cria
Na arte
Sou criador
Por propagar quem amou
De forma nada seleta
Na arte de Deus ao poeta
Que a mim o senhor emanou.
Galdencio
Educação de Matuto
Seu doutor eu sou matuto
La das bandas do sertão
Nunca fui numa escola
Mas eu tenho educação
Minha escola foi à vida
Diferente dessa sua
Conheci o sofrimento
Ele vivo em carne crua
Meu primeiro ensinamento
Foi com um mestre sabiá
A caneta foi meu dedo
A esponja um trapiá
O que sei oh seu doutor
Conheci lá no roçado
Num almoço quando vinha
Aprendi dizer brigado
Nessa escola seu doutor
O senhor não é formado
Se quiser eu ignoro
O que o senhor mostrou a mim
E a educação de um matuto
Eu lhe passo um bucadim
E o senhor doutor aprende
Pra depois cuidar de mim.
Galdencio
Infância de Menino
O riacho que deságua
No meu peito traz saudade
Do meu tempo de menino
Ate minha mocidade
Quando eu era criança
Sob a luz do candeeiro
Pra ficar com as menininhas
Me sentava no terreiro
Pra puder contar estrelas
Tomar água de cabaça
Escutar cantar de grilo
E comer beiju de massa
Pra comer beiju de mãe
Com café quente e fresquinho
Que dava pra todo mundo
Mãe partia direitinho
Num falhava uma só noite
A gente naquele cantinho
Toda noite inda me lembro
Da pureza La de casa
Da infância de um menino
Que marcou como com brasa.
(Galdencio)
Sertão Chovedor
Essa noite quando deitei
Sem querer sonhei dormindo
Que em meu sertão vinha vindo
Água e muita fartura
E minha terra que é dura
Começou frutificar
E um verde lindo brotar
Num novo sertão chovedor
E um curió cantador
A mim começou mostrar
Da terra a coisa mais linda
O dia que a seca se finda
E que não mais vai voltar
E com um toque mais que sutil
O João de Barro faz sua casa
E a minha alegria extravasa
Com um Beija Flor sobre o rio
Mas pra acabar com o meu brio
O sol queimou o meu rosto
Trazendo um acordar com desgosto
Dum sonho que foi o mais lindo
Do meu sertão chovedor
Que sem querer sonhei dormindo
Galdêncio
Linda Flor
Só a força do amor
Conseguiu trazer você
Que é pra eu puder te ter
Pra ninar meu coração
A certeza de um amor
Trago em minha devoção
Sou devoto de Luiz
Padre ciço e lampeão
Linda Flor tu és real
Me assombra tua beleza
Teu olhar celestial
De menina tens pureza
Se pudesse eu voaria
Pra pertinho de você
E querendo te querer
Pra contigo eu ficar
Tu comigo és completa
Nem artista nem profeta
Nosso amor vai decifrar.
Galdencio
Coisas que inventei de inventar
Inventei de inventar um invento
Certo que seria estrela
Não passei de ser jumento
inventei um tal de ficar
Era só agarra agarra
Era só se esfregar
O invento foi tão bom
Que danei-me a inventar
E inventei o tal do namorar
No namoro era melhor
Era mais que agarra agarra
Era mais que esfregar
O que queria podia
Só carecia lhe falar
Foi o melhor invento
Que inventei de inventar
Não me dei por satisfeito
Inventei de me casar
Acabou-se a liberdade
Junto com felicidade
Comecei a me lascar
Hoje triste e infeliz
Intriguei-me do juiz
Que ajudou me condenar
Também não falo as testimunhas
Pois se fossem meus amigos
Eles também não tavam lá
Se culpado já paguei
Mas se a culpa for do padre
Ele também vai me pagar
Dos inventos que inventei
Entre eles este é o rei
No pior do inventar.
Galdencio
Nós
Se nós dois assim pensasse
Se nós dois assim queresse
Se os sonhos não parasse
Se os sonhos só crecesse
Se comigo tu quisesse
Só pra nós,nós dois vivesse
Se a gente só se amasse
Quem sabe a gente num sofresse
Se a gente se humilhasse
E nesse ato nós crecesse
Só um perdão nós dois pedisse
E nada disso acontecesse
E o amor não mais deixasse
Que mesmo vivo nós morresse.
Galdencio
Nasce poeta
(A Luan meu filho)
No corredor de um hospital
Mulher que grita ao parir
Temendo não resistir
A uma dor não profana
Rolando em cima da cama
Quase toda a madrugada
Esperando uma parada
Uma paz no coração
Um pouco de solidão
Muda o rumor de uma vida
Sarando tanta ferida
A pouco tempo criada
No meio de uma jornada
Acaba com tua dor
Acha paz e o amor
Glória a Deus e é Maria
Mas uma mulher que dá cria
De forma tão indiscreta
Vem ao mundo,nasce poeta
Vem de contra o sofrimento
Choro,fadiga e lamento
Muda a fome e a tristeza
O que a natureza cria
Muda até o pensamento
Transformando em poesia.
(Galdencio)
O que é que me falta fazer mais...
(mote de Ivanildo Vila Nova)
A Bill Gates eu um dia dei esmola
Pra rimar sou veloz e não tropeço
Ensinei o Pelé a jogar bola
Pinto e Louro ensinei a fazer verso
Fiz a Fenix ressurgir e ir a lua
Elegi um honesto presidente
Coloquei Napoleão pra varrer rua
fiz um homem comer coco sem ter dente
Do folgado eu tirei toda preguiça
Pra fazer sou veloz e sou audaz
Fiz o diabo no domingo ir a missa
O que é que me falta fazer mais...
(Galdencio)
Utopia
Tudo em você admirei
O brilho dos meus olhos
Aos teus aproximei
Embriaguei-me com teu cheiro
E senti minha utopia
Pensei que teu amor
Amor meu nunca seria
Meio que desnortiado
Não achei destinatário
Perdi-me num labirinto
Em meu próprio imaginario
Ao achar uma saída
Dei de cara com você
Com seu beijo empreguinei-me
Nunca mais vou esquecer
E não mais que derrepente
Veio à noite e foi-se o dia
E mostrou que teu amor
Era minha utopia.
(Galdencio)
Pedra de bodoque (Musicada por Liozipio)
Eu fui usado
Feito pedra de bodoque
Onde cheguei bati tão forte
Sem querer deixei a dor
Fiz um estrago
Acabei com tua vida
Abri no peito uma ferida
E o riacho que desagua
Para mim em ti secou
Eu vi nascer,frutificar
Fazer morada
Fui a pedra na estrada
Que o destino assim lançou
Abri os olhos e feri a minha alma
Quando o canteiro da saudade
Ele em mim desabrochou
(Galdencio)
Divina inspiração
(Primogênito Lucas)
Razão do meu viver
Minha divina inspiração
Foi Deus quem fez você
Nós dois em um só coração
És pequenino anjo
Que veio pra eu proteger
É a coisa mais bonita
Preciso muito de você
Estrela no meu céu
Água no meu mar
És fonte iluminada
O ar pra eu respirar,
Coração batendo junto
numa mesma sintonia
Por saber que estás comigo
Seja noite ou seja dia
Galdencio Neto
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05/08/2009 às 10h31
Severino Lourenço da Silva Pinto foi um poeta superlativo. Astuta raposa, cobra das mais venenosas. O seu poder de criação e a velocidade de raciocínio muitas vezes faziam as palavras tropeçarem umas nas outras, não pelo verso quebrado, absolutamente, mas quase engolindo sílabas, dada a ligeireza dos versos despejados em turbilhão. Autor de versos contundentes, tudo nele transpirava grandiosidade. Foi um gênio da cantoria
A data de seu nascimento é incerta. Mas numa entrevista concedida a Djair de Almeida Freire, em 11/04/1983, na casa do poeta, ele revelou sua idade. Eis os principais trechos:
"Meu nome é Severino Lourenço da Silva Pinto Monteiro, nasci em 1895, a 21 de novembro, a uma da madrugada, assim dizia minha mãe. Batizei-me a primeiro de janeiro de 1896, pelo padre Manoel Ramos , na Vila de Monteiro. Nasci na rua, mas morava em Carnaubinha. Com sete anos de idade, em 1903, fui para a Fazenda Feijão. Saí de lá em 1916, 30 de junho. Meus avós eram da Itália. Quando chegaram por aqui se misturaram com sangue de português. Esse Monteiro é parente dos Brito, eu sou parente dos Brito".
Essa figura legendária, que atendia pelo nome de Pinto do Monteiro correu muito trecho pelo Brasil afora. Filho de um tropeiro com uma doméstica, Pinto experimentou muitas profissões, antes de se dedicar inteiramente à viola. A primeira foi de vaqueiro. Foi soldado de polícia, guarda de serviço contra a malária, auxiliar de enfermeiro, vendedor de cuscuz no Recife. "Depois larguei os cuscuz e ficava cantando na calçada do mercado de São José", declarara o próprio Pinto, certa vez. Recordava outra vez que, ao cantar como estreante, alguém o alertou: "Se você continuar, vai cantar de assombrar o mundo". E assombrou.
Ele tinha 25 anos quando começou a cantar. Foram seus mestres de cantoria Saturnino Mandu, de Poções (PE), Manoel Clementino, de Sumé (PB), e José de Lima em companhia de quem foi para o Recife onde cantou com muitos repentistas daquele Estado.
Em 1940, já tendo adquirido bastante experiência como cantador e mestre em cantoria, viajou para o Amazonas, onde até 1946 exerceu as funções de guarda do serviço contra a malária, ora em Porto Velho, ora em Guajaramirim, ora em Boa Vista. Quando voltou veio morar no Ceará. E em 1947 muda-se para Caruaru (PE). Depois mudou-se para Sertânea (PE), mais perto de Monteiro.
A característica marcante da cantoria de Pinto foi a naturalidade e rapidez de improviso. Cognominado "A Cascavel do Repente", Pinto era ágil, certeiro, veloz, e também venenoso e mortífero, deixando muitas vezes o oponente mudo e sem resposta. Numa ocasião, foi convidado a assistir a uma cantoria, em que um dos repentistas era Patativa, poeta ruim, cuja viola era toda enfeitada de fitas coloridas, Alguém pediu ao dono da casa que deixasse Pinto cantar. "Com a gente, não, não, só se for sozinho", defendeu-se a dupla. Pinto ficou em pé, no meio da sala, e disse:
Eu não sei como se ouve
Cantor como Patativa
Toda pronúncia é errada
Toda rima é negativa
A viola só tem fita
Mas a cantiga é merda viva".
A troca de "amabilidades" com qualquer que fosse o cantador era uma constante. Se o adversário era ruim, apertava o cerco. Se, por outra, era um do porte de Lourival Batista, a disputa fervia. Destemido, lutou contra cangaceiros, quando era da polícia. Mas, não chegou a lutar contra Lampião, pois somente quando estava no Acre, no serviço contra a malária, é que o famoso sertanejo entrou no cangaço.
A Cascavel do Monteiro esguio, estatura mediana, teve quatro mulheres. Nenhum filho, ao menos oficialmente. Aprendeu a ler e a escrever, já adulto, o que foi suficiente para aprimorar conhecimentos de história e geografia gerais, história antiga, história do Brasil. Gostava de escrever poemas e cartas aos amigos. Era um assombro de agilidade e insolência. Malcriado como sempre, acabava com o violeiro nas primeiras linhas.
Cantando em Caruaru, com Aristo José dos Santos, ouviu a estrofe que assim terminava: "moço comigo é na faca / velho comigo é no pau". Respondeu:
Mas eu sou como lacrau
Que do lixo se aproxima
Vivendo da umidade
Se alimentando do clima
Pra ver se um besta assim
Chega e bota o pé em cima.
Se provocado não tinha papas na língua nem conveniências. E o contendor era obrigado a recuar porque, com sua peculiar fertilidade de versejar, era capaz de fazer uma segunda sextilha antes que o outro se refizesse do choque da primeira resposta. Cantando uma vez com Joaquim Vitorino, este caiu na asneira de fazer referências às lapadas de cana de um primo seu. Pinto então fez esta sextilha, causando um certo desconforto no companheiro:
Você bebe até veneno!
Seu pai é bom troaqueiro,
Manoel, um ébrio afoito
Vive apanhando em Monteiro!
Quem tem uma corja desta
Não fala de cachaceiro.
A cantoria é uma manifestação muito criativa. E cantar de improviso requer muita agilidade de pensamento. E Pinto tinha tudo isso. Ele atravessou décadas cantando. Conheceu uma centena de repentistas, duelando com muitos deles. Desafiou grandes cantadores, como Lourival Batista, Dimas Batista, Pedro Amorim, Rogaciano Leite, Heleno Pinto (seu irmão), Antônio Marinho e muitos outros. "Eu assisti Pinto no auge, com Louro. Várias vezes. Nunca consegui saber qual dos dois estava na frente. No mínimo, era um empate", relembra Raimundo Patriota. E acrescenta: "Seguir o estilo de Pinto era muito difícil. Era um estilo muito pessoal. Muitos tentaram, mas não conseguiram". A verdade é que o nome de Pinto tomou-se um marco no universo da poesia improvisada do Nordeste. Diz-se que foi o maior.
Certa vez, ao ser perguntado sobre os maiores repentistas, Pinto não titubeou: "Foi o sogro e o genro" (referindo-se a Antonio Marinho e Lourival Batista). Com Job Patriota, foi mais direto: "Do meu tamanho mesmo, só Louro e Antônio Marinho. O resto é assim do seu tamanho". Quanto a Rogaciano Leite, considerado discípulo da Cascavel, Pinto coloca-o no rol dos grandes, chamando-o de "monstro".
João Furiba cantou muito com Pinto e não tinha medo de apanhar. No Festival de Violeiros de Olinda, em 1984, Furiba homenageou o mestre, presente ao acontecimento. "Seu verso hoje é açude / que abarrota a represa / rio que não perde a água / planta que possui beleza / gênio que desdobra o mundo / por conta da natureza".
Não se sabe, ao certo, com que idade Pinto morreu. Uns dizem que ele era de 1895, outros, de 1896. O próprio dizia que nasceu ora em 2 de novembro de 1896, ora em 21 de novembro de 1895. Afirma-se que morreu com mais de cem anos. Testemunhos dizem que era mais novo do que Antônio Marinho apenas dois anos. Conforme esse dado, Pinto teria morrido aos 101 anos, uma vez que Marinho é de 1887. Já velhinho, carregava um pandeiro para acompanhá-lo nos improvisos, alegando que "o volume é mais pequeno / e o pacote é mais maneiro".
Para alegria dos admiradores, Pinto deixou sua voz registrada em dois LP's Pinto do Monteiro: Vida, Poesia e Verdade, produzido pela Fundação Joaquim Nabuco, e Pinto de Monteiro e Zé Pequeno: acelerando as asas do juízo, selo independente. Há, ainda, sua imagem e voz em inúmeras fitas de vídeo, Super-8, cassete, cinema. Deve haver, também, registro de muitos dos festivais dos quais participou, no Recife, São Paulo, João Pessoa, Fortaleza, Caruaru, Limoeiro, Petrolina, Campina Grande, entre outros.
No I Congresso de Cantadores do Recife, organizado por Rogaciano Leite, em 1948, no teatro de Santa Isabel, Pinto do Monteiro foi o grande vencedor, juntamente com o piauiense Domingos Martins Fonseca. Em dezembro de 1970, foi ao Festival de Cinema de Guarujá, com Lourival Batista, Job Patriota, Pedro Amorim, José Nunes Filho. Teve participação em filmes, entre eles, Nordeste: Cordel, Repente, Canção, dirigido por Tânia Quaresma.
Certa vez, Pinto cantando com um outro seu colega, este elogiava o Sertão, terra do velho cantador, e terminou uma sextilha assim: "Não sei medir o tamanho / dessa gente sertaneja". Pinto pega na deixa e diz, com sua maneira autêntica de sertanejo puro e de versos fáceis:
Que eu esteja em casa ou não esteja
chegue, entre e arme a rede
coma se estiver com fome
beba se estiver com sede
se quiser se balançar
empurre o pé na parede.
De outra feita, numa dessas suas grandes e ferrenhas lutas, em seu desafio o parceiro termina uma sextilha assim: "quando eu for para o outro mundo / vou lhe promover a galo". Facilmente, Pinto jogou esta sátira:
Se eu gozar desse regalo
concedido pela providência
quando eu for pra o outro mundo
havendo esta transferência
você vem como galinha
para a mesma residência.
Pinto era um verdadeiro cantador de repente. Bem diferente dos que normalmente conhecemos, que seguem uma rotina. Ele não. Respondia ao que lhe perguntam e revidava conforme lhe feriam. Numa cantoria, seu colega querendo atacá-lo, disse: "Aqui nesta cantoria / eu quero deixá-lo rouco". Pinto, com sua inesgotável idéia, responde:
Cantar com quem canta pouco
é como viajar numa pista
com um carro faltando freios
o chofer faltando a vista
e um doido gritando dentro:
"atola o pé motorista".
Em toda cantoria há o momento dos elogios, em que o cantador faz uma exaltação ao ouvinte, para agradá-lo e a paga ser recompensável. Era uma delas, o velho Pinto elogiava um sujeito e tudo fazia para agradá-lo. O camarada foi se retirando e não pagou. Pinto notou que ele tinha uma verruga no rosto e imediatamente soltou a dele, com esta sextilha:
Eu não posso confiar
em cabra que tem verruga
cachorro de boca preta
terreno que não enxuga
comida que doido enjeita
e casa que cigano aluga.
Sua viola era sagrada. Tinha um ciúme danado dela. Quando ele próprio sentiu que já estava próximo da morte, pois se encontrava muito doente, fez a seguinte recomendação à sua mulher:
Velhinha, quando eu morrer
Conserve a minha viola
Bote ela numa sacola
E deixe o rato roer
Barata dentro viver
O morcego morando nela
O cupim comento ela
E ela perdendo o valor
Só não deixe cantador
Bater mais nas cordas dela.
De 1988 até a morte, Pinto permaneceu em Monteiro. Já cego e paralítico, porém totalmente lúcido, entregou-se à morte por absoluta falta de opção, numa noite de domingo, 28 de outubro de 1990, após viver mais de nove décadas, pelo menos, e deixar seu nome inscrito nos anais da fama, como cantador dotado de muita agilidade mental e muita ironia.Seu derradeiro sonho era morrer em Pernambuco, próximo dos companheiros de viola. Não o realizou, mas garantiu que ficaria para semente, como, de fato, ficou, brotando na memória do improviso:
Quando os velhos morrem
Os que ficam cantam bem
Duda passou de Marinho
Por mim não passa ninguém.
Eu vou ficar pra semente
Prá séculos sem fim amém